O torcedor alvinegro conhece de cor o roteiro que virou tradição na Série C: time que empolgava na primeira fase, construía esperança nas arquibancadas do Almeidão e então, na hora que mais importava, desaparecia. Não era azar. Era um padrão. E dois anos recentes provam isso com números que ainda doem.
O padrão que cansou a torcida
Em 2023, o Botafogo-PB fez uma primeira fase sólida, perdendo apenas três dos 19 jogos, e entrou no quadrangular do acesso entre os favoritos. O que veio depois foi devastador: quatro derrotas em cinco jogos, aproveitamento despencando de 52% para míseros 20%. O time que havia empolgado desmanchou exatamente na hora decisiva.
Em 2024, o roteiro foi ainda mais cruel. O Belo bateu o recorde histórico de pontos na primeira fase do atual formato (41 pontos) e terminou o torneio com a terceira maior pontuação geral da competição, atrás apenas do campeão Volta Redonda e do Athletic. Times que subiram. O Belo não. No quadrangular, fez apenas cinco pontos e foi eliminado em último do seu grupo. Mais empolgação. Mais frustração. Mais um ano na Série C.
2026: o roteiro ao contrário
Este ano a história foi invertido. O colapso veio no começo, não no fim. Depois de duas vitórias nas rodadas iniciais, o Belo entrou em queda livre e acumulou seis derrotas consecutivas — a maior sequência negativa do clube na Terceirona —, chegando a apenas seis pontos em oito jogos, perigosamente próximo da zona de rebaixamento.
A diferença é que, desta vez, sobrou tempo para reagir. E o Belo reagiu. Nas últimas seis rodadas, foram cinco vitórias e um empate, 16 dos 18 pontos possíveis, com uma campanha de líder. O sistema defensivo se tornou uma muralha, com três jogos seguidos sem sofrer gols, enquanto o ataque passou a marcar dois gols por partida em média. Com 22 pontos e na sexta colocação, o clube tem 61,1% de probabilidade de avançar ao quadrangular do acesso, segundo o Chance de Gol.
Nenê: 44 anos e o peso de um líder quando o time mais precisou
Se existe um símbolo humano dessa virada, ele tem 44 anos, cabelos brancos e ainda faz diferença em cada jogo que entra. Quando o Botafogo-PB anunciou a contratação de Nenê em janeiro, o clube foi direto na mensagem: "o maestro estava chegando para comandar e liderar." Ninguém imaginava que a frase seria tão literal.
O episódio mais emblemático aconteceu na 14ª rodada. Nenê havia participado da cobertura da Copa do Mundo pela CazéTV, desembarcou em João Pessoa e foi direto para o jogo contra o Confiança. Em campo, participou dos dois gols da vitória por 2 a 0: cobrou o escanteio que resultou no primeiro e, aos 30 minutos do segundo tempo, venceu a disputa com o marcador pela esquerda, chegou à linha de fundo e cruzou para Kayon marcar o segundo. Com 44 anos. Sem descanso. Sem desculpa.
Essa é a síntese de Nenê em 2026: um jogador que poderia estar em qualquer lugar, mas escolheu o Almeidão — e está provando, semana após semana, que foi a escolha certa.
A decisão que fez diferença
Por trás de tudo está uma escolha corajosa da SAF: manter Marcelo Fernandes mesmo durante a crise, mesmo com quatro das seis derrotas já sob seu comando. O treinador respondeu com trabalho, como ele mesmo gosta de frisar, e recolocou o Belo na zona do G-8.
Não é pouca coisa. Marcelo Fernandes já provou que sabe transformar adversidade em acesso: a Ponte Preta de 2025 foi campeã da Série C com salários atrasados e crise interna. Desta vez, com estrutura e confiança da diretoria, o trabalho rendeu ainda mais rápido.
Diferente de 2023 e 2024, o Belo chega à reta final crescendo, e não murchando. Um veterano de 44 anos que sai da Copa do Mundo e vai direto decidir pelo Belo. Um técnico que já foi campeão no caos. Uma SAF que teve coragem de acreditar quando ninguém mais acreditava. O roteiro mudou. E desta vez, a história pode ter um final diferente.
✍️Murilo Costa - CDB
📸 João Neto/BFC

